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Ontem, num pequeno jantar que reunia amigos e família, uma avó olha para o relógio, percebe o avançado da hora, constata que à mesa há uma adolescente e vários casais de reformados, e comenta que, bem vistas as coisas, só duas pessoas é que têm que acordar cedo para trabalhar, no dia seguinte. Uma das pessoas, uma mulher jovem e grávida, apressa-se a dizer alto o que lhe acorreu ao cérebro e ao coração. Conclui ela, no disparo, que tal somente significava que todos os presentes andavam às custas ou às costas – as opiniões dividiram-se depois acerca do exacto termo pronunciado – dos dois únicos que trabalhavam. Espantosamente, nenhum dos reformados reagiu. Nenhum se sentiu injustiçado com a observação. Nenhum se sentiu beliscado na sua dignidade, na aproximação ao fardo e à parasitagem. Só mesmo a adolescente, que não deixou de barato e lembrou que, muito embora, no caso, “às custas” ou “às costas” até viesse a dar no mesmo, a cada um se pede que desempenhe o seu papel e que, desde que tal aconteça, ninguém em verdade existe pendurado ou carregado por ninguém. Como a adolescente era a minha filha, dão-me por favor o direito de ter amanhecido orgulhosa e a achar que em algum ponto, pelo menos, eu devo ter acertado, no que se refere à quota parte de contributo que me coube na sua formação como gente.

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Um dos prodígios da internet, é essa arte mágica de ampliar círculos de conversação entre pessoas de qualquer parte do mundo, de permitir que, a uma dada hora, ainda que geograficamente distantes, todas possam sentar-se com uma xícara de café a uma mesma mesa prantada no ciberespaço, trocando ideias, impressões, jogando argumentos e reflexões ao debate. Essa maravilha é uma consequência dessa invenção a que deram o nome de “global chat”. Sou adepta fascinada dessas facilidades desde a primeira hora e faz tempo que confabulo com grandes amigos que trago espalhados pelo mundo dessa forma. Umas vezes a gente conversa por micro e voz, num sistema de net-call, outras por video-conferência, outras sob a lógica de forúm, com todos a atirar frases para um quadro, que todos lêem em tempo real e onde todos podem participar e intervir.

Ora, uma destas noites, conversando com amigos do Brasil e outras latinidades, dei-me conta da absoluta estranheza que lhes causa o desaproveitamento recorrente dos elementos humanos mais bem preparados que calha possuirmos e da sua perplexidade diante desse fenómeno que eu mencionava e a que damos o nome de “fuga de cérebros”. Tenho um conhecimento relativo desses países e sei bem de como priorizam a capacitação de pessoas, nas mais diferentes áreas e patamares. Mesmo assim foram-me colocando ao corrente de várias políticas e projectos, donde me resultou ainda mais clara uma prioridade que eu já me havia dado conta no local e de que me apercebo, sobretudo através da leitura dos seus jornais. Conversando, todos nos fomos dando conta de que nossos respectivos países fazem movimentos diametralmente opostos. Enquanto lá são famintos de pessoas capacitadas, aqui têm quase horror. Por lá, uma pessoa capacitada é uma benção caída dos céus. Aqui transforma-se imediatamente num problema sem tamanho. Lá tenta-se cativá-la. Aqui inventa-se até o que não se pode para limitá-la. Lá criam-se-lhe incentivos. Aqui erguem-se-lhe obstáculos. Lá pergunta-se-lhe o que sugere e necessita para funcionar no seu máximo esplendor. Aqui engendram-se-lhe armadilhas e boicotes para nunca se aproximar dos mínimos que traz em potencial. Lá é desejada. Aqui assusta. Lá, as coisas que diz e faz são atentamente escutadas e observadas. Aqui tudo o que diz é automaticamente posto em causa e todas as coisas que faz geram desconfiança e suspeição imediata. Em suma, lá é bem vinda e recebida de braços abertos; aqui deixa logo tudo e todos de pé atrás e transforma-se num alvo a abater.

Para fechar o serão, que a noite já ia alta em alguns fusos horários, concluímos juntos que, se do lado de cá do oceano, olhamos para lá e nos parece que “em terra de cegos, quem tem um olho é rei“; de lá, por sua vez, quando olham para o que vai nesta banda de cá, a impressão que têm é a de que “são pérolas a porcos” ou então que, se calhar, “Deus dá as nozes a quem não tem dentes“. Assim como assim, preferi a segunda formulação. Em tudo me parece preferível a imagem de um Deus generoso por demais do que a conta, à de um pobre animal engasgado com uma qualquer jóia atravessada na garganta, sem nem noção de que outro uso lhe dar.

O meu avô costumava repetir uma frase que, com os anos, cada vez me parece mais notável. Tinha ele por hábito resumir do seguinte modo:

Não há nada mais prejudicial a quem trabalha do que aqueles que nada fazem.

Não sei porquê, ou talvez saiba, apetece-me deixar aqui esse pedaço de ‘sageza’. Deixo à consignação, à apreciação, à reflexão e a todos os outros “ão” que fazem estrondo nos nossos dias de entusiasta empenho apaixonado. Que os cães ladrem, mas a caravana não cesse jamais de passar!

Carta a vocês, Caríssimos

Através de velhos amigos, chegam-me notícias do Acre. Marina Silva perdeu três quilos em menos de uma semana, desde que apresentou a demissão como ministra do ambiente. Regressou ao Acre por uns dias. Voltou para descansar um pouco junto dos seus. Contam-me os que a conhecem de jornadas mais longas que mesmo magoada nas suas mais francas e acarinhadas convicções, continua valente e determinada, plena de uma força que nem Lula, nem PT abalam. O Página 20 está atravessando uma fase de renovação. Altino foi chamado para dar fôlego vivo ao online e o Toinho está tão animado que encara até a hipótese de regressar com a coluna que assinava na década de 80. Em Barcelona, a loja de comércio justo da minha boa amiga Del vai de vento em popa, como ponta de um iceberg que começa a despontar e que puxa pela proa um trabalho muito mais vasto de divulgação e suporte à cultura da América Latina. Por cá, está prestes a começar o período em que os festivais se multiplicam e remultiplicam, de norte a sul do País, não obstante este ano o Verão ainda não ter passado de longínqua miragem. No entretanto, também eu puxo o carro do online, sendo que nem sempre é fácil apaixonar o entorno pelo alcance e múltiplas possibilidades discursivas que ele abre. Observo muitos Velhos do Restelo, mas denoto também que parte das objecções se resumem a azias que vêm do receio de perder os lugares clássicos do protagonismo. A somar à lista de  obstáculos e pelejas a travar, o desconhecimento e o despreparo das estruturas e das mentalidades. O tão falado “choque tecnológico” de Sócrates é como este Verão que não há meio de chegar: um eterno sonho em projecto. A falta de incentivo, a lentidão, o formalismo sinuoso e a burocracia labiríntica e complicada em que o procedimento mais simples se vê enredado, é a metade outra das principais dificuldades que venho identificando. No mais, creio que deste como do outro lado do Atlântico, omeletas sem ovos sempre continuam a ser o prato mais requisitado sobre a mesa. Ultimamente, aliás, salta-me cada vez mais à vista um paradoxo. Não entendo como mais gente não se dá conta dele. Quanto mais a sociedade se afirma céptica e descrente, mais milagres ela pede. Pedem-se ideias sem dar estímulo, esforço sem oferecer recompensa, trabalho sem tempo para almoçar, dormir, rir ou descansar, garante-se pelo mínimo para poder exigir o máximo, enfim!…  Acresce a este cenário uma crise sem precedentes que tem feito o preço dos combustíveis subir desenfreadamente. Esta semana abasteci o depósito do carro pela manhã e, quando voltei a encostar no posto, ao final da tarde, o gasóleo tinha aumentado 0,3 cêntimos.

Pelo meio, comovi-me com uma réplica para a modernidade de uma tela de Ticciano que a minha filha pintou e que foi escolhida e exibida em exposição pública. Fiquei a saber que tenho mais sobrinhos para nascer, chorei a ver dois números num mesmo espectáculo, arrepiei-me a ouvir a primeira actuação ao vivo de uma das maiores divas de Cabo Verde, quase 15 anos depois de um contrato fraudulento a afastar dos palcos, as lágrimas vieram-me aos olhos em conversa com a minha fadista de eleição e quase fugi com o circo sem olhar para trás.

Suponho, portanto, que por entre sobressaltos e dissabores, a vida me vai brindando com encantamentos suficientes para prosseguir em diante sem esmorecer mais que os breves instantes que levo a contar até dez, respirar fundo e recolocar o foco no que verdadeiramente importa.

O dia veio-se desanuviando aos pouquinhos. Mais um pouco e já quase ninguém se lembra das nuvens pesadas logo após a alvorada, nem do céu cinzento que durou por toda a manhã e começo da tarde, à imagem do que tem acontecido nas últimas semanas. Agora, é quase azul esse céu que se abeira do poente. Acho que é dos poucos dias em que, enfim, dá para sentir que já estamos no horário de Verão. Estamos faz tempo, na verdade, mas nem tem dado para dar conta, tamanha a chuva, a friagem e o negrume invernoso que por cá têm teimado. Venho igualmente reparando que a folhagem está atrasada, no jardim aqui de fronte. As copas das árvores permanecem escafiadas e nuas e do verde e da sombra nada, até ao momento. Mais uma semana e estaremos em Junho. Esse ano tem sido triste. Continuamos aguardando o sol. Estremeço com este estreitar de semelhança entre Lisboa e as restantes capitais da Europa. Gosto da minha Lisboa como sempre foi: mestiça e marginal, pois todo o mundo sabe que é Princesa Árabe largada esquecida às margens do Tejo e que, por ser assim, sempre esteve mais para o aconchego morno das praças do norte de África do que para o retemperanços frígidos do Velho Continente. Estremeço diante da possibilidade do clima estar a aproximar Lisboa dos termómetros de Londres e Bruxelas. Talvez por esse receio que subitamente me invade, tenha voltado a reconsiderar várias vezes, nas últimas semanas a possibilidade de estar vindo aí a hora de partir daqui e ter que ir morar num outro lugar, onde haja sol e noites mornas e onde o céu azul, o verde do arvoredo e o florir dos canteiros não se reduza a uma benesse da natureza a espaçados tempos que só nos agraciam de quando em vez.

Pode ser só uma ideia louca a atravessar-me as ideias, um pensamento meio louco e infundado a passar-me pela cabeça, mas algo me diz que se as alterações climáticas já chegaram a Lisboa, não tarda muito vou ter mesmo que me mudar daqui… Mais cedo, portanto, do que estava nos meus planos. Bem antes do que imaginava. Não sei. Pode ser. Quem sabe?! Por enquanto é só um pressentimento que vai ganhando expressão dentro do meu coração.

Foi há tanto tempo. Estava no mato, no sertão. Lembro que era noite. Tinha que ser. Eu olhava o céu e ele estava cheio de estrelas. Brilhavam a ponto de fazer esquecer a lua, quase uma lâmina de foice, amarelada, anunciando chuva. E, de repente, me dei conta de que estava olhando o passado. Todo aquele brilho, aquela luz vinha de milhares, até milhões de anos no passado. Algumas daquelas estrelas, cujo brilho tanto, agora, me encantava, talvez já estivessem mortas. Muito antes do meu olhar. Mortas desde muito tempo antes da vida aparecer aqui. Mais cedo, jogando conversa fora, alguém tinha dito que “o sol vai explodir em cinco milhões de anos”. Vai explodir e levar junto com ele para a escuridão todos os planetas ao redor, todas as luas. E esse canto do universo vai ser mais um lugar escuro e ninguém, lá bem longe de nós, poderá ver o nosso brilho em nenhuma noite. Não tem importância,
pensei, não estarei mais aqui. De mais a mais, é bem provável que quando isso acontecer já teremos evoluído ao ponto de ter escapado desta prisão. A ciência – ou algo parecido – já nos terá enviado para os confins do espaço e nos espalhado pela galáxia.

J. Wilker

Há, efectivamente, momentos de extrema lucidez onde, como que por magia, tudo se enxerga com claridade. Nunca havia me dado conta que para ficar de novo olhos nos olhos com o que passou, basta simplesmente esperar que anoiteça e erguer o olhar. Nunca, até então, me havia ocorrido essa evidência espantosa de que olhar para as estrelas é estar frente a frente com o passado e, nesse sentido, ajudá-lo a cumprir o que, em si mesmo, sempre trouxe em potência: suprimir-se do fim e roçar a eternidade.
E quem sabe é por isso que me sinto, esta manhã, a despertar dentro de uma certa felicidade que foi como que milagrosamente revigorada. Quem diria que hoje ao acordar eu haveria de descobrir que é sem razão isso que humanamente nos amargura desde que principiamos a tomar consciência de nós: afinal é possível, sim, voltar atrás. Voltar lá atrás. Por tantas vezes quantas as estrelas que houver no céu. Quando anoitecer e tudo se puder olhar mais de perto e de frente.

Sempre que alguém me pressiona, tendo a lembrar-me de um par de versos do Cazuza que são suficientes para me manter o prumo e poupar a grandes angústias, por tudo o que deixo em falta e a que nem me sinto tentada a tentar lançar mão: “Ouça-me bem, Amor“, ele escrevia. “Preste atenção, o Mundo é um moínho / vai reduzir às ilusões a pó“. Mantinha-se firme no alerta, Cazuza: “Preste atenção, Querida / embora saiba que estás resolvida / em cada esquina cai um pouco a tua vida / e em pouco tempo não serás mais o que és“. E para o caso de ainda restarem dúvidas, lá seguia ele, incansável no aviso: “Preste atenção, o Mundo é um moínho / vai reduzir às ilusões a pó“, explicando com todas as letras, para quem quisesse dar-se à fineza de o escutar: “quando notares, estás à beira do abismo / abismo que cavaste com teus pés“.

Não disponho, portanto, de grande segredo, nesta coisa de travar o Mundo nas suas cegas vertigens compulsivas, com que a cada momento tenta atolar-nos na argamassa espessa que constantemente produz e lhe sai das entranhas. Mas perguntam-me muito e muitas vezes e, só por isso, de vez em quando lá me pergunto eu própria a mim também. Palavra que tento e me esforço à resposta, mas por mais que pense e a procure, não encontro na minha posse nenhuma manha menos óbvia. Assim sendo, sou levada a crer que talvez não seja manha, mas uma certa arte, como esta de ter a fineza de ir escutando os artistas e cantarolando para com os meus botões uma qualquer canção sua, que a vida instintivamente me evoque ao passo.

Alguém me liga a perguntar se já tenho alguma noção para o dia de hoje. A pergunta é estranha, eu sei. Assim vista de fora e tão de repente, admito que até pode parecer assustadora e, se nos desviarmos uns quantos graus, por outro prisma e sob um outro ângulo ainda, pode mesmo parecer colossal e assustadora. Mas não é. É uma simples pergunta de trabalho, dessas que temos por hábito e necessidade fazer, para ver se produzimos alguma coisa de interessante com as horas que nos ficam.

Em todo o caso, confesso que hoje hesito um pouco. Para responder com propriedade precisava aqui de resolver qual é o meu palpite mais acertado: se o que me diz que, até ao fim do dia, muitas pessoas se hão-de estranhamente eclipsar da face da Terra; ou se, pelo contrário, o que me diz que pode ser que o horizonte tenha acordado fadado a encontrá-las todas ao mesmo tempo.

Não sei bem em que é que ficamos. “A ver vamos!…“, como o povo gosta de dizer. Cá estaremos para ver, já que, naquilo que nos toca, não temos mesmo outro remédio.

Hoje apeteceu-me seriamente escrever. E apeteceu-me tanto e tão fundo que a ocasião me aconteceu quase como uma homilía, apesar das páginas dos jornais guardarem muito pouco lugar ao especialíssimo instante dessa reverência que a escrita pede e urge ser. Foi então que percebi que, por qualquer razão que desconheço, mas a que sou grata, ensurdeci subitamente e sem aviso, para esse frenesim que de quando em onde se afobava à minha volta, nesse ansioso alinhavo de interjeicções por onde a pressa acha de gritar quando se quer fazer ouvir e continuar a parecer discreta, por se tratar de vir lembrar a implacável compressão dos rolos e das impressoras, que nas alturas sacras se esquecem. Tornei-me quase eu, quase grata por trabalhar e o meu trabalho ser este e ser assim, quase grata por ter um número de segurança social e descontar impostos ao fim do mês. Mas não disse nada porque não me pareceu valer a pena. E também não vou explicar-me agora muito além, porque não creio que me consiga fazer entender tão claramente como me sinto. Hoje. Aqui. Só porque seriamente me aconteceu apetecer escrever e escrevi.

Nunca entendi muito bem a coerência de certas divisões. Bem vistas as coisas, nem sequer discordo com o princípio divisor a que fomos chegando por eliminação, bom senso, tentativas e erros ou, simplesmente, maioria de razão. Acho, aliás, que tudo na vida devia seguir a mesma lógica das canalizações: da porta da rua para dentro, passam a ser coisa nossa que a mais ninguém diz respeito. Só não entendo porque é que o mesmo não se aplica a tudo o resto. Convém, pois esclarecer: não é o princípio acordado que me incomoda, é o desacordo na coerência da sua aplicação.

Posto isto, o resto da tarde fica para encontrar um canalizador que rapidamente trave a inundação que alagou o banheiro e me proporciona, desde madrugada, um lago no lugar do chão onde antes havia uma ilha em forma de tapete.

maio 2008
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copyright © Maggie C. 2007