Hoje apeteceu-me seriamente escrever. E apeteceu-me tanto e tão fundo que a ocasião me aconteceu quase como uma homilía, apesar das páginas dos jornais guardarem muito pouco lugar ao especialíssimo instante dessa reverência que a escrita pede e urge ser. Foi então que percebi que, por qualquer razão que desconheço, mas a que sou grata, ensurdeci subitamente e sem aviso, para esse frenesim que de quando em onde se afobava à minha volta, nesse ansioso alinhavo de interjeicções por onde a pressa acha de gritar quando se quer fazer ouvir e continuar a parecer discreta, por se tratar de vir lembrar a implacável compressão dos rolos e das impressoras, que nas alturas sacras se esquecem. Tornei-me quase eu, quase grata por trabalhar e o meu trabalho ser este e ser assim, quase grata por ter um número de segurança social e descontar impostos ao fim do mês. Mas não disse nada porque não me pareceu valer a pena. E também não vou explicar-me agora muito além, porque não creio que me consiga fazer entender tão claramente como me sinto. Hoje. Aqui. Só porque seriamente me aconteceu apetecer escrever e escrevi.

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