Sempre que alguém me pressiona, tendo a lembrar-me de um par de versos do Cazuza que são suficientes para me manter o prumo e poupar a grandes angústias, por tudo o que deixo em falta e a que nem me sinto tentada a tentar lançar mão: “Ouça-me bem, Amor“, ele escrevia. “Preste atenção, o Mundo é um moínho / vai reduzir às ilusões a pó“. Mantinha-se firme no alerta, Cazuza: “Preste atenção, Querida / embora saiba que estás resolvida / em cada esquina cai um pouco a tua vida / e em pouco tempo não serás mais o que és“. E para o caso de ainda restarem dúvidas, lá seguia ele, incansável no aviso: “Preste atenção, o Mundo é um moínho / vai reduzir às ilusões a pó“, explicando com todas as letras, para quem quisesse dar-se à fineza de o escutar: “quando notares, estás à beira do abismo / abismo que cavaste com teus pés“.

Não disponho, portanto, de grande segredo, nesta coisa de travar o Mundo nas suas cegas vertigens compulsivas, com que a cada momento tenta atolar-nos na argamassa espessa que constantemente produz e lhe sai das entranhas. Mas perguntam-me muito e muitas vezes e, só por isso, de vez em quando lá me pergunto eu própria a mim também. Palavra que tento e me esforço à resposta, mas por mais que pense e a procure, não encontro na minha posse nenhuma manha menos óbvia. Assim sendo, sou levada a crer que talvez não seja manha, mas uma certa arte, como esta de ter a fineza de ir escutando os artistas e cantarolando para com os meus botões uma qualquer canção sua, que a vida instintivamente me evoque ao passo.

Anúncios