Foi há tanto tempo. Estava no mato, no sertão. Lembro que era noite. Tinha que ser. Eu olhava o céu e ele estava cheio de estrelas. Brilhavam a ponto de fazer esquecer a lua, quase uma lâmina de foice, amarelada, anunciando chuva. E, de repente, me dei conta de que estava olhando o passado. Todo aquele brilho, aquela luz vinha de milhares, até milhões de anos no passado. Algumas daquelas estrelas, cujo brilho tanto, agora, me encantava, talvez já estivessem mortas. Muito antes do meu olhar. Mortas desde muito tempo antes da vida aparecer aqui. Mais cedo, jogando conversa fora, alguém tinha dito que “o sol vai explodir em cinco milhões de anos”. Vai explodir e levar junto com ele para a escuridão todos os planetas ao redor, todas as luas. E esse canto do universo vai ser mais um lugar escuro e ninguém, lá bem longe de nós, poderá ver o nosso brilho em nenhuma noite. Não tem importância,
pensei, não estarei mais aqui. De mais a mais, é bem provável que quando isso acontecer já teremos evoluído ao ponto de ter escapado desta prisão. A ciência – ou algo parecido – já nos terá enviado para os confins do espaço e nos espalhado pela galáxia.

J. Wilker

Há, efectivamente, momentos de extrema lucidez onde, como que por magia, tudo se enxerga com claridade. Nunca havia me dado conta que para ficar de novo olhos nos olhos com o que passou, basta simplesmente esperar que anoiteça e erguer o olhar. Nunca, até então, me havia ocorrido essa evidência espantosa de que olhar para as estrelas é estar frente a frente com o passado e, nesse sentido, ajudá-lo a cumprir o que, em si mesmo, sempre trouxe em potência: suprimir-se do fim e roçar a eternidade.
E quem sabe é por isso que me sinto, esta manhã, a despertar dentro de uma certa felicidade que foi como que milagrosamente revigorada. Quem diria que hoje ao acordar eu haveria de descobrir que é sem razão isso que humanamente nos amargura desde que principiamos a tomar consciência de nós: afinal é possível, sim, voltar atrás. Voltar lá atrás. Por tantas vezes quantas as estrelas que houver no céu. Quando anoitecer e tudo se puder olhar mais de perto e de frente.

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