O dia veio-se desanuviando aos pouquinhos. Mais um pouco e já quase ninguém se lembra das nuvens pesadas logo após a alvorada, nem do céu cinzento que durou por toda a manhã e começo da tarde, à imagem do que tem acontecido nas últimas semanas. Agora, é quase azul esse céu que se abeira do poente. Acho que é dos poucos dias em que, enfim, dá para sentir que já estamos no horário de Verão. Estamos faz tempo, na verdade, mas nem tem dado para dar conta, tamanha a chuva, a friagem e o negrume invernoso que por cá têm teimado. Venho igualmente reparando que a folhagem está atrasada, no jardim aqui de fronte. As copas das árvores permanecem escafiadas e nuas e do verde e da sombra nada, até ao momento. Mais uma semana e estaremos em Junho. Esse ano tem sido triste. Continuamos aguardando o sol. Estremeço com este estreitar de semelhança entre Lisboa e as restantes capitais da Europa. Gosto da minha Lisboa como sempre foi: mestiça e marginal, pois todo o mundo sabe que é Princesa Árabe largada esquecida às margens do Tejo e que, por ser assim, sempre esteve mais para o aconchego morno das praças do norte de África do que para o retemperanços frígidos do Velho Continente. Estremeço diante da possibilidade do clima estar a aproximar Lisboa dos termómetros de Londres e Bruxelas. Talvez por esse receio que subitamente me invade, tenha voltado a reconsiderar várias vezes, nas últimas semanas a possibilidade de estar vindo aí a hora de partir daqui e ter que ir morar num outro lugar, onde haja sol e noites mornas e onde o céu azul, o verde do arvoredo e o florir dos canteiros não se reduza a uma benesse da natureza a espaçados tempos que só nos agraciam de quando em vez.

Pode ser só uma ideia louca a atravessar-me as ideias, um pensamento meio louco e infundado a passar-me pela cabeça, mas algo me diz que se as alterações climáticas já chegaram a Lisboa, não tarda muito vou ter mesmo que me mudar daqui… Mais cedo, portanto, do que estava nos meus planos. Bem antes do que imaginava. Não sei. Pode ser. Quem sabe?! Por enquanto é só um pressentimento que vai ganhando expressão dentro do meu coração.

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