Carta a vocês, Caríssimos

Através de velhos amigos, chegam-me notícias do Acre. Marina Silva perdeu três quilos em menos de uma semana, desde que apresentou a demissão como ministra do ambiente. Regressou ao Acre por uns dias. Voltou para descansar um pouco junto dos seus. Contam-me os que a conhecem de jornadas mais longas que mesmo magoada nas suas mais francas e acarinhadas convicções, continua valente e determinada, plena de uma força que nem Lula, nem PT abalam. O Página 20 está atravessando uma fase de renovação. Altino foi chamado para dar fôlego vivo ao online e o Toinho está tão animado que encara até a hipótese de regressar com a coluna que assinava na década de 80. Em Barcelona, a loja de comércio justo da minha boa amiga Del vai de vento em popa, como ponta de um iceberg que começa a despontar e que puxa pela proa um trabalho muito mais vasto de divulgação e suporte à cultura da América Latina. Por cá, está prestes a começar o período em que os festivais se multiplicam e remultiplicam, de norte a sul do País, não obstante este ano o Verão ainda não ter passado de longínqua miragem. No entretanto, também eu puxo o carro do online, sendo que nem sempre é fácil apaixonar o entorno pelo alcance e múltiplas possibilidades discursivas que ele abre. Observo muitos Velhos do Restelo, mas denoto também que parte das objecções se resumem a azias que vêm do receio de perder os lugares clássicos do protagonismo. A somar à lista de  obstáculos e pelejas a travar, o desconhecimento e o despreparo das estruturas e das mentalidades. O tão falado “choque tecnológico” de Sócrates é como este Verão que não há meio de chegar: um eterno sonho em projecto. A falta de incentivo, a lentidão, o formalismo sinuoso e a burocracia labiríntica e complicada em que o procedimento mais simples se vê enredado, é a metade outra das principais dificuldades que venho identificando. No mais, creio que deste como do outro lado do Atlântico, omeletas sem ovos sempre continuam a ser o prato mais requisitado sobre a mesa. Ultimamente, aliás, salta-me cada vez mais à vista um paradoxo. Não entendo como mais gente não se dá conta dele. Quanto mais a sociedade se afirma céptica e descrente, mais milagres ela pede. Pedem-se ideias sem dar estímulo, esforço sem oferecer recompensa, trabalho sem tempo para almoçar, dormir, rir ou descansar, garante-se pelo mínimo para poder exigir o máximo, enfim!…  Acresce a este cenário uma crise sem precedentes que tem feito o preço dos combustíveis subir desenfreadamente. Esta semana abasteci o depósito do carro pela manhã e, quando voltei a encostar no posto, ao final da tarde, o gasóleo tinha aumentado 0,3 cêntimos.

Pelo meio, comovi-me com uma réplica para a modernidade de uma tela de Ticciano que a minha filha pintou e que foi escolhida e exibida em exposição pública. Fiquei a saber que tenho mais sobrinhos para nascer, chorei a ver dois números num mesmo espectáculo, arrepiei-me a ouvir a primeira actuação ao vivo de uma das maiores divas de Cabo Verde, quase 15 anos depois de um contrato fraudulento a afastar dos palcos, as lágrimas vieram-me aos olhos em conversa com a minha fadista de eleição e quase fugi com o circo sem olhar para trás.

Suponho, portanto, que por entre sobressaltos e dissabores, a vida me vai brindando com encantamentos suficientes para prosseguir em diante sem esmorecer mais que os breves instantes que levo a contar até dez, respirar fundo e recolocar o foco no que verdadeiramente importa.

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