Um dos prodígios da internet, é essa arte mágica de ampliar círculos de conversação entre pessoas de qualquer parte do mundo, de permitir que, a uma dada hora, ainda que geograficamente distantes, todas possam sentar-se com uma xícara de café a uma mesma mesa prantada no ciberespaço, trocando ideias, impressões, jogando argumentos e reflexões ao debate. Essa maravilha é uma consequência dessa invenção a que deram o nome de “global chat”. Sou adepta fascinada dessas facilidades desde a primeira hora e faz tempo que confabulo com grandes amigos que trago espalhados pelo mundo dessa forma. Umas vezes a gente conversa por micro e voz, num sistema de net-call, outras por video-conferência, outras sob a lógica de forúm, com todos a atirar frases para um quadro, que todos lêem em tempo real e onde todos podem participar e intervir.

Ora, uma destas noites, conversando com amigos do Brasil e outras latinidades, dei-me conta da absoluta estranheza que lhes causa o desaproveitamento recorrente dos elementos humanos mais bem preparados que calha possuirmos e da sua perplexidade diante desse fenómeno que eu mencionava e a que damos o nome de “fuga de cérebros”. Tenho um conhecimento relativo desses países e sei bem de como priorizam a capacitação de pessoas, nas mais diferentes áreas e patamares. Mesmo assim foram-me colocando ao corrente de várias políticas e projectos, donde me resultou ainda mais clara uma prioridade que eu já me havia dado conta no local e de que me apercebo, sobretudo através da leitura dos seus jornais. Conversando, todos nos fomos dando conta de que nossos respectivos países fazem movimentos diametralmente opostos. Enquanto lá são famintos de pessoas capacitadas, aqui têm quase horror. Por lá, uma pessoa capacitada é uma benção caída dos céus. Aqui transforma-se imediatamente num problema sem tamanho. Lá tenta-se cativá-la. Aqui inventa-se até o que não se pode para limitá-la. Lá criam-se-lhe incentivos. Aqui erguem-se-lhe obstáculos. Lá pergunta-se-lhe o que sugere e necessita para funcionar no seu máximo esplendor. Aqui engendram-se-lhe armadilhas e boicotes para nunca se aproximar dos mínimos que traz em potencial. Lá é desejada. Aqui assusta. Lá, as coisas que diz e faz são atentamente escutadas e observadas. Aqui tudo o que diz é automaticamente posto em causa e todas as coisas que faz geram desconfiança e suspeição imediata. Em suma, lá é bem vinda e recebida de braços abertos; aqui deixa logo tudo e todos de pé atrás e transforma-se num alvo a abater.

Para fechar o serão, que a noite já ia alta em alguns fusos horários, concluímos juntos que, se do lado de cá do oceano, olhamos para lá e nos parece que “em terra de cegos, quem tem um olho é rei“; de lá, por sua vez, quando olham para o que vai nesta banda de cá, a impressão que têm é a de que “são pérolas a porcos” ou então que, se calhar, “Deus dá as nozes a quem não tem dentes“. Assim como assim, preferi a segunda formulação. Em tudo me parece preferível a imagem de um Deus generoso por demais do que a conta, à de um pobre animal engasgado com uma qualquer jóia atravessada na garganta, sem nem noção de que outro uso lhe dar.

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maio 2008
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copyright © Maggie C. 2007

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