Ontem, num pequeno jantar que reunia amigos e família, uma avó olha para o relógio, percebe o avançado da hora, constata que à mesa há uma adolescente e vários casais de reformados, e comenta que, bem vistas as coisas, só duas pessoas é que têm que acordar cedo para trabalhar, no dia seguinte. Uma das pessoas, uma mulher jovem e grávida, apressa-se a dizer alto o que lhe acorreu ao cérebro e ao coração. Conclui ela, no disparo, que tal somente significava que todos os presentes andavam às custas ou às costas – as opiniões dividiram-se depois acerca do exacto termo pronunciado – dos dois únicos que trabalhavam. Espantosamente, nenhum dos reformados reagiu. Nenhum se sentiu injustiçado com a observação. Nenhum se sentiu beliscado na sua dignidade, na aproximação ao fardo e à parasitagem. Só mesmo a adolescente, que não deixou de barato e lembrou que, muito embora, no caso, “às custas” ou “às costas” até viesse a dar no mesmo, a cada um se pede que desempenhe o seu papel e que, desde que tal aconteça, ninguém em verdade existe pendurado ou carregado por ninguém. Como a adolescente era a minha filha, dão-me por favor o direito de ter amanhecido orgulhosa e a achar que em algum ponto, pelo menos, eu devo ter acertado, no que se refere à quota parte de contributo que me coube na sua formação como gente.

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